terça-feira, 11 de janeiro de 2011

se ensinasse escrita criativa, perguntou-me, o que lhes diria?




diria para terem um desgosto amoroso,
hemorróidas, dentes podres
beberem vinho barato,
evitar a ópera e o golfe e o xadrez,
mudarem a cabeça da cama
de parede para parede
e depois diria para terem
outro desgosto amoroso
e para nunca usarem computador
portátil,
evitarem almoços em família
ou serem fotografados num jardim
com flores;
para lerem Hemingway só uma vez,
passarem por Faulkner
ignorarem Gogol
verem fotografias da Getrude Stein
e lerem Sherwood Anderson na cama
enquanto comem bolachas de água e sal,
perceberem que as pessoas que falam de
liberdade sexual tem mais medo do que vocês.
para ouvirem E. Power Biggs a tocar
órgão na rádio enquanto enrolam
um Bull Durham às escuras
numa cidade desconhecida
com um dia para pagar a renda
depois de abandonar
amigos, família e trabalho.
para nunca se considerarem superiores e/
ou justos
e nunca tentar ser.
para terem outro desgosto amoroso.
observarem uma mosca no verão.
nunca tentar ter sucesso.
nunca jogar bilhar.
para se mostrarem verdadeiramente furiosos
quando descobrirem que têm um pneu furado.
tomarem vitaminas mas nunca fazer exercício físico.

depois disto tudo
inverter o processo.
ter um bom caso amoroso.
e aprender
que não há nada nem ninguém a saber tudo –
nem o Estado, nem os ratos
nem a mangueira do jardim nem a Estrela Polar.
e se algum dia me apanharem
a dar uma aula de escrita criativa
e lerem isto
eu dou-vos um 20
pelo cu
acima.

Velho BUK

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Todos somos seres da noite ou (coisas das sombras)





Que a noite venha logo e traga com ela toda a virtude dos experimentadores, dos anarquistas, dos rebeldes e dos bêbados. Que ela caia como uma tortura para os ímpios, os puritanos, os sóbrios, os moralistas e os fracos. Que a dor venha e traga com ela a cura desse mal e que passe a ser um instrumento de transformação, que essa dor seja apenas um instrumento, só mais um instrumento que utilizaremos para essa transformação.
À noite e seus mistérios, sempre vem e trazem consigo a glória do ressurgir e a nobreza do resignificar e assim as coisas nunca mais serão as mesmas e a vitória, sempre tem o gosto de derrota / quem vence na verdade? E quem perde?
O perdedor sempre será perdedor e levará com sua alma o estigma dos filhos de Caim...
A noite como um silêncio soturno, frio e calmo, deve chegar logo ludibriando e pacificando todos os corações, pois tudo que é DIA virará NOITE.

Enzo de Marco

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Eternas Quartas do vinho ( Viva a Boêmia Filosófica)





Nós temos uma imensa vontade
De abraçar o mundo
Gostaríamos da companhia de todos
Junto a nós, no boteco da esquina
Gostaríamos de compartilhar com todos
As dores de se ser gente
É assim que se aprende
Queríamos ouvir os bêbados e suas filosofias
Suas mais belas filosofias, verdadeiras ou não...
Ouvir os loucos, os desiludidos
Os apaixonados...
Queríamos aprender com eles, os apaixonados
A magia do amor
Mas dizem que amor não se aprende
queríamos sair do bar tombando pela calçada
Abraçados a um desconhecido
Eis o verdadeiro amigo!
As vozes em tom alto, indignadas...
As vozes de cantores de banheira
Na sua mais alta afinação
Numa sintonia efervescente com o coração
queríamos poder compartilhar com o solitário
e sua cerveja
Aquele barulho ensurdecedor do silêncio
Ele, a cerveja e sua lágrima

(Texto Extraído do manual da Grãn Unidade Cósmica)

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Estrada da Mutação ou (mudança no caminho)




Não! Não podemos parar, a estrada é longa e a noite é fria.
De longe percebo que olhos nos seguem, olhos vermelhos e gelados olho de raios-X Cercam-nos a alma e nos cegam de medo.
Não podemos parar mesmo sem motores e nem asas, o horizonte estar na nossa frente e é grande a estrada, os corvos estão à espreita, querem arrancar nossos olhos, existe uma lenda que diz que os olhos são entrada da alma.
Ah! cara como as coisas estão difíceis. Sempre vemos pessoas na beira da estrada, cansadas, sofridas, solitárias e famintas, penso que talvez pare um dia assim como elas, penso em ajudá-las, me parece um pouco impossível, pois nem sei se elas querem ser ajudadas, a grande verdade é que nem eu nem elas sabem do que devem ser ajudadas.
Nossa! Como é longo este caminho, inúmeras pedras, buracos e espinhos, sangue e gritos são comuns. Muitos não resistem e desfalecem... Desistem. Uma coisa tenho certeza é que cada pedra que tropecei, que cada buraco que cair e espinho que perfurou minha carne ajudaram a construir este ser em completa metamorfose.
Enzo de Marco

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Balada do amor


Não quero amar, não! Nunca mais
que esse negocio de amor
já não se faz sem punhais.
Mister dos mistérios tais
Ah! Eu nasci perdedor.
Pra que mentir de fingidor
das dores tão reais.
Que romantismo e insolência
torna-se o amor em violência
só à paixão luz natural
tesão de deusa pagã
que vence o amor a La D.Juan
certeza e gloria de fazer o mal.
Amor que move o sol e outras estrelas...
Ah! Quem penou a luz delas,
esses eu conheço de outros carnavais.
Deixem-me ser aprendiz
do amor perverso, do amor feliz.
Lugar comum de anjos e animais.
Belchior

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Das 32 horas que teria com você ou ( Confissões de uma amante )



Você vai chegar, fico imaginando o beijo que vai durar por dois minutos, o abraço caloroso, um olhar de saudade e de paixão. Mas eis que te vejo, você dá um abraço que une as partes exatas do corpo, mas que afasta com a desculpa do suor, dá um selinho e diz do cansaço da viagem.
Percorre minha casa com pressa, pergunta pelas pessoas, quando chegar, como vão... pega sua chave e sai.
Quarenta minutos depois volta, de banho tomado, com fome. Chama para um lanche e conta do trabalho, das coisas que encontrou em casa e do que precisa fazer. Segura nada mais que dois dedos da minha mão.
Voltamos, falamos da saudade do sexo, da vontade e você faz planos para um momento de amor sublime. A essa altura já vejo que tudo vai ser igual, que não passa de falação. Na despedida uns beijos quentes que mal alcançam a língua, já estão nos seios, uma vontade animal e o sexo rápido, a tontura é momentânea e a vontade de dormir chega, fruto do cotidiano e do momento.
Chega o outro dia, meu plano de com você rever e curtir a cidade sucumbe com a rotina, as pessoas para ver, os bichos para cuidar. Entre o almoço, às vezes antes outras depois, começam os copos de cerveja e o vinho barato. Já é tarde, as horas estão passando, não te vejo ou te vejo de relance, você passa sem camisa, com os cabelos ao vento, já se reapropriou do ambiente, é como se nunca tivesse saído.
Chega a noite, antes já nos falamos telefone algumas vezes, você diz que a noite vai ser minha, ou será que serei sua, já que é você que diz? Fico a espera mesmo sabendo que tudo é possível. Você já tomo várias, ainda quer mais, sai para a roda e volta no tempo da vontade e depois de todos os encontros.
Quando cedo, nos encontramos as vinte e trinta, vinte e uma, se minha paciência e minha raiva deixarem, não brigamos. Caso eu não esteja com o limiar tão alto assim, rola uma briga depois do seu banho. Se não, alguns momentos de sexo, com um pouco mais de tranqüilidade, com juras de saudade. Mas aí o tempo já passou, volto para casa e durmo.
Resta o domingo, um almoço coletivo e quando sobra...

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Homens carros (E o espírito do tempo)

É engraçado de como essas coisas insistem em acontecer comigo, se alguem me contasse certamente eu não acreditaria e acharia tudo uma grande historia.
Quero falar de como percebi que este poema /poesia/ musica, veio parar em minha mãos. Foi num domingo onde fui tocar junto com uns amigos num teatro aqui no suburbio, até então tudo normal só que percebi que ele estava lá , dentro da capa que eu guardo o meu contra-baixo.


Homens carros vieram da estrada
Somente para te dizer que de fato
Os seus veículos possuem
Um coração
Se acaso você duvida
Então tente lhes convencer


Homens carros
Na incerteza da estrada
Não tem o que esconder
Vão seguindo
O caminho do vento que sopra
Em turbilhão
Estão em busca do espírito
Do tempo que começou

Homens carros
Conquistam horizontes
Até mesmo sem perceber
Que na neblina da vida
Os leva sempre a colidir com tudo aquilo que
Sonharam e deixaram de ir buscar

Benjamim